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Um ataque de pânico pode durar poucos minutos, mas a experiência nem sempre termina quando as sensações diminuem. Depois de uma crise, pode surgir uma preocupação persistente com a possibilidade de que ela aconteça novamente.
A pessoa pode começar a prestar mais atenção aos batimentos cardíacos, à respiração, à tontura ou a outras sensações do corpo. Algo que antes passaria despercebido pode começar a ser observado como possível sinal de uma nova crise. Também podem surgir mudanças de comportamento destinadas a evitar situações, sensações ou circunstâncias associadas ao que aconteceu.
É nesse sentido que algumas pessoas descrevem o transtorno do pânico como um “medo do medo”: não apenas o medo vivido durante o ataque, mas também o medo de voltar a experimentar determinadas sensações e de que uma nova crise aconteça.
Compreender como esse processo pode se formar ajuda a explicar por que o impacto do pânico, em alguns casos, continua muito além dos minutos de uma crise.
O que significa “ter medo do medo”?
A expressão “medo do medo” pode parecer estranha à primeira vista. Ela não significa simplesmente que a pessoa esteja com medo de ficar ansiosa. No transtorno do pânico, o próprio surgimento de determinadas sensações pode passar a ser percebido como sinal de que algo perigoso está prestes a acontecer.
Uma aceleração dos batimentos cardíacos, uma mudança na respiração, uma sensação de tontura ou de calor, por exemplo, podem adquirir um significado diferente depois de terem sido vividas durante uma crise.
A sensação deixa de ser apenas uma sensação e passa a ser observada também pelo que ela parece anunciar.
O medo, então, pode aparecer antes mesmo de um novo ataque. A pessoa pode perceber uma pequena alteração corporal e pensar que a crise está começando, preocupar-se com o que acontecerá se as sensações aumentarem ou começar a observar o corpo em busca de outros sinais.
Nesse processo, não é necessário que exista uma decisão consciente de prestar atenção ao corpo. A vigilância pode se tornar cada vez mais automática, especialmente quando determinadas sensações passaram a ser associadas à experiência intensa de uma crise.
Quando prestar atenção ao corpo aumenta a sensação de ameaça
Depois de uma crise de pânico, algumas pessoas passam a observar com mais atenção sensações que antes poderiam receber pouca importância. Uma mudança nos batimentos cardíacos, na respiração, uma tontura ou uma sensação de calor podem começar a chamar a atenção, especialmente quando sensações semelhantes já foram associadas a uma experiência de medo intenso.
Essa atenção aumentada pode tornar pequenas alterações corporais mais perceptíveis. E, quando uma sensação é interpretada como sinal de que uma nova crise está começando, percebê-la pode aumentar a apreensão e produzir novas alterações corporais.
Uma coisa pode começar a alimentar a outra:
a pessoa percebe uma sensação, preocupa-se com o que ela pode significar, fica mais atenta ao corpo e passa a perceber ainda mais sensações.
Isso não significa que as sensações sejam imaginárias. O coração pode realmente acelerar, a respiração pode se modificar e outras alterações físicas podem ocorrer. A questão é que sensação corporal, atenção e interpretação podem passar a influenciar umas às outras, aumentando a experiência de ameaça.
O que fazemos para tentar impedir que uma nova crise aconteça
Quando uma experiência é percebida como ameaçadora, tentar impedir que ela se repita é uma reação compreensível. Depois de uma crise de pânico, algumas pessoas começam a evitar situações que associaram ao ataque ou que acreditam que poderiam dificultar receber ajuda ou sair rapidamente caso uma nova crise acontecesse.
Outras mudanças são mais sutis. A pessoa pode passar a sair apenas acompanhada, escolher lugares próximos a uma saída, levar consigo algo que acredita que poderá ajudá-la durante uma crise, verificar repetidamente como está se sentindo ou interromper uma atividade assim que percebe determinadas sensações corporais.
Quando sentir-se seguro começa a depender de certas condições
Algumas dessas estratégias são chamadas, em determinados modelos psicológicos, de comportamentos de segurança. Elas têm uma função compreensível: diminuir a sensação de perigo ou aumentar a percepção de proteção.
Essas estratégias podem trazer alívio imediato. O problema é que aquilo que proporciona segurança no curto prazo pode, em algumas situações, dificultar novas experiências.
Se a pessoa permanece em determinado lugar apenas porque está acompanhada, por exemplo, pode continuar sem saber o que aconteceria se estivesse sozinha. Se interrompe uma atividade sempre que o coração acelera, pode ter poucas oportunidades de experimentar aquela sensação sem que uma crise ocorra.
Com a repetição, certas precauções podem começar a parecer necessárias. A pessoa pode passar a acreditar que consegue permanecer naquele lugar porque está acompanhada ou que interromper a atividade foi o que impediu uma crise.
Quando o medo de uma nova crise começa a limitar a vida
Nem sempre as mudanças acontecem de uma vez.
Muitas vezes, são pequenas adaptações que parecem fazer sentido isoladamente: deixar de dirigir por determinado caminho, evitar exercícios que acelerem o coração, preferir não ficar sozinho, sentar-se perto da saída ou recusar um compromisso por receio de passar mal longe de casa.
Com o tempo, porém, essas escolhas podem se acumular. O medo de uma nova crise pode deixar de interferir apenas em situações específicas e começar a organizar partes importantes da vida: por onde a pessoa circula, o que consegue fazer sozinha, quais atividades mantém e quais passa a evitar.
Por isso, o impacto do transtorno do pânico não pode ser compreendido apenas pela frequência ou pela intensidade dos ataques.
Às vezes, uma parte importante do sofrimento está no que a pessoa deixou de fazer para tentar impedir que eles aconteçam.
Quando as adaptações vão se tornando parte da vida
Há pessoas que convivem durante muito tempo com ataques de pânico sem compreender exatamente o que está acontecendo.
Algumas encontram maneiras de continuar a vida apesar deles: evitam determinados lugares, procuram estar acompanhadas, dependem de certas condições para se sentirem seguras ou simplesmente suportam as crises quando elas acontecem.
Quando essas adaptações se repetem durante muito tempo, podem deixar de parecer adaptações. Tornam-se parte da rotina. A pessoa pode organizar deslocamentos, compromissos e escolhas levando em consideração aquilo que teme, sem necessariamente perceber quanto espaço esse medo passou a ocupar.
Também pode haver silêncio em torno dessa experiência. A dificuldade de explicar o que acontece, o receio de não ser compreendido ou a vergonha de não conseguir controlar determinadas reações podem fazer com que alguém conviva com o problema sem falar sobre ele ou sem procurar ajuda.
Às vezes, o medo de uma nova crise já não é percebido claramente como medo. Ele aparece nas escolhas que deixaram de ser feitas, nas precauções que se tornaram necessárias e nos limites que, pouco a pouco, passaram a parecer naturais.
É possível mudar essa relação com o medo?
Quando alguém passa a temer determinadas sensações do corpo, é compreensível que tente evitá-las. O problema é que viver tentando impedir que o coração acelere, que surja uma tontura ou que a ansiedade aumente pode manter a atenção voltada justamente para aquilo que se teme.
Na psicoterapia, esse processo pode ser trabalhado de diferentes maneiras. Em abordagens com evidências para o transtorno do pânico, isso pode incluir compreender o significado atribuído às sensações corporais, examinar o que acontece quando elas surgem e trabalhar, gradualmente, com situações e sensações que passaram a ser evitadas.
A exposição pode fazer parte desse trabalho. Em alguns casos, ela envolve situações que a pessoa passou a evitar. Em outros, determinadas sensações corporais temidas. Não é uma questão de colocar alguém diante do medo e esperar que se acostume.
Há uma razão clínica para utilizá-la, e ela precisa fazer sentido dentro do tratamento.
Ao longo desse processo, algumas precauções que pareciam indispensáveis podem deixar de ser. Uma sensação física pode continuar sendo desagradável sem ter imediatamente o significado de uma crise que está começando. Uma atividade antes evitada pode voltar a ser possível.
O medo pode continuar aparecendo. O que pode mudar é o espaço que ele ocupa na vida e quantas escolhas ainda precisam ser feitas para evitá-lo.
Para compreender melhor o transtorno do pânico
O medo de uma nova crise é apenas uma parte do transtorno do pânico. Se você quiser entender melhor como os ataques são caracterizados, quais sintomas podem ocorrer, os fatores associados e as possibilidades de tratamento, leia Transtorno do Pânico: Sintomas, Causas e Tratamento.
Se a sua dúvida é sobre psicoterapia e sobre como trabalho clinicamente com essas questões, veja Tratamento do Transtorno do Pânico.
Mary Scabora – Psicóloga Clínica
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Entrar em contato pelo WhatsAppSobre Mary Scabora
Mary Ana Paula Scabora (CRP 05/36742) é psicóloga clínica e especialista em neurociências e comportamento. Atende adultos no Brasil e no exterior, acompanhando pessoas que desejam compreender os processos emocionais, cognitivos e relacionais envolvidos em seu sofrimento e em sua forma de viver, para além da redução de sintomas.
Sua prática integra psicologia baseada em evidências, neurociências e reflexão filosófica, articuladas a uma escuta clínica orientada por pensamento crítico, rigor técnico e atenção à singularidade de cada trajetória.




