superar uma traição
22/05/2016O primeiro encontro: nove regras que você pode (e deve!) quebrar, se quiser
Entrevista concedida para o portal IG | Revisão e atualização: Mary Scabora – Psicóloga Clínica
Não existe uma fórmula para o primeiro encontro. O que existe é a possibilidade de estar presente, escutando a si mesma com respeito.
Cuidar da saúde mental também é cuidar da qualidade das relações que cultivamos. E isso começa por aprender a se colocar — com firmeza e leveza.
IG – O que é realmente fundamental no primeiro encontro? Ser uma pessoa autêntica?
Mary Scabora – Sim, a autenticidade é muito importante. É natural querer causar boa impressão no primeiro encontro, mas criar um personagem não se sustenta por muito tempo.
O primeiro encontro é um momento para conhecer o outro, perceber afinidades e avaliar se há sintonia de objetivos e valores. Ter clareza sobre o que se busca e o que se está disposto(a) a oferecer é essencial para começar qualquer relação de forma mais consciente.
IG – Existe algum cuidado que as mulheres devem tomar?
Mary Scabora – Sim: o cuidado com a própria segurança. Em tempos de encontros mediados por aplicativos e redes sociais, é fundamental cautela na escolha do local e informar alguém de confiança.
No primeiro encontro, o ideal é que seja leve e divertido, pois ainda não se sabe se a relação se prolongará. Escolher temas mais neutros pode evitar situações desconfortáveis, além do conhecido conselho de não falar sobre ex-relacionamentos e evitar assuntos muito íntimos ou polêmicos para não transformar o encontro em algo cansativo e enfadonho.
IG – Hoje as mulheres têm mais liberdade e se prendem menos às regras convencionais dos encontros?
Mary Scabora – Hoje, muitas mulheres já caminham com mais consciência sobre seus direitos, seus limites e suas escolhas. Estão mais seguras, autônomas e questionam com mais clareza as regras antigas que, por muito tempo, moldaram o comportamento feminino a partir da submissão.
Mas essas regras ainda influenciam muita gente, e algumas mulheres seguem presas a elas não por convicção, mas por insegurança, medo da rejeição ou por carência afetiva.
Romper com esses padrões não depende apenas de autoestima ou de discursos prontos sobre liberdade. Exige autoconhecimento, coragem para se frustrar e disposição para sustentar escolhas mais verdadeiras — mesmo que desagradem as expectativas dos outros.
Leia mais sobre lidar com as emoções e desenvolver a inteligência emocional.
IG – Qual é a vantagem de não seguir esses “manuais” de conquista?
Mary Scabora – Esses manuais normalmente reforçam ideias ultrapassadas e colocam a mulher como alguém que deve agradar para ser aceita. Ao rejeitá-los, ela afirma sua liberdade de agir com autonomia e respeito por si mesma.
Decidir sobre o próprio corpo, desejo e maneira de se relacionar deve vir de um lugar interno de escuta, não de regras externas. É um gesto de integridade e cuidado consigo mesma.
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IG – Que características as mulheres precisam trabalhar para conseguir abandonar essas regras?
Mary Scabora – O caminho começa pela reflexão e pelo autoconhecimento. É preciso interrogar essas normas com lucidez, reconhecendo que muitas delas foram introjetadas sem questionamento — muitas vezes desde a infância — não por escolha, mas por repetição cultural.
Ao confrontar esses padrões, a mulher deixa de apenas reagir ao que esperam dela e passa a construir um pensamento próprio, mais coerente com sua história e com quem está se tornando.
Esse processo favorece a maturidade emocional, fortalece a segurança interna e amplia a autonomia nas relações. Ela se distancia da repetição inconsciente e se aproxima de escolhas mais autênticas.
Uma mulher que se conhece, que compreende sua história e seus limites, não se molda para caber em expectativas alheias — ela sustenta vínculos sem sacrificar sua integridade. Porque já não negocia afeto às custas de si mesma.
🔍 Padrões que se repetem merecem atenção.
Se você repete padrões afetivos que machucam, talvez não seja uma questão de sorte ou azar — mas de escuta.
Psicoterapia também pode ser um espaço para olhar com mais profundidade para padrões que dificultam as relações.
IG – Os homens estão preparados para que as mulheres quebrem essas regras?
Mary Scabora – Depende de quais homens — e de quais regras. Muitos já se abriram a relações mais igualitárias e até se sentem aliviados ao encontrar mulheres que se posicionam com clareza e autonomia.
Mas ainda há quem se oriente por expectativas tradicionais, mesmo sem perceber. Esperam desejo contido, iniciativa seletiva, entrega sem exigência. Quando uma mulher rompe com esse roteiro, pode haver resistência ou recuo.
Algumas mulheres, inclusive, seguem reproduzindo essas normas por insegurança ou medo de rejeição, confundindo concessão com escolha.
Quebrar regras, nesse contexto, não é provocação — é coerência consigo mesma. Nem todos estarão prontos, mas talvez essa não deva ser a principal preocupação.
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Regras que elas podem (e devem) quebrar
As regras que um dia moldaram o comportamento feminino foram feitas para restringir, não para libertar. Questioná-las, hoje, é também um ato de respeito por si — e um convite a viver relações mais verdadeiras
IG – Transar no primeiro encontro
Mary Scabora – Transar no primeiro encontro não deveria ser uma questão de certo ou errado, mas de desejo, contexto e consentimento. Se há conexão, vontade mútua e respeito, não há por que reprimir o que é espontâneo.
O problema é que ainda vivemos sob resquícios de uma moralidade machista, que associa o valor da mulher à sua contenção. Muitas deixam de agir com liberdade por medo de julgamento — preocupadas com a imagem que o outro fará delas.
O que deve orientar a decisão é o desejo genuíno, e não os padrões impostos por uma lógica que desvaloriza a autonomia feminina. Quando a mulher está em contato com o que sente e sabe o que deseja, sua decisão tende a ser menos moldada pelo medo e mais conectada ao cuidado de si.
Saiba mais sobre como a psicoterapia pode te ajudar.
IG – Não ligar no dia seguinte
Mary Scabora – Se tiver vontade de ligar, ligue. Criar regras artificiais para proteger o ego ou “não demonstrar interesse demais” costuma gerar mais ansiedade do que segurança. Se houver reciprocidade, a iniciativa será bem-vinda. E, se não houver, os sinais aparecerão — e ela poderá seguir em frente, sem fantasias, abrindo espaço para novas conexões.
O que sustenta uma relação não é o jogo, mas clareza e disponibilidade para se mostrar como se é.
IG – Evitar lingeries sensuais demais
Mary Scabora – O mais importante é estar à vontade com o que se escolhe usar. Autenticidade é o que sustenta a leveza de um encontro. Forçar um estilo que não reflete quem você é pode tornar a experiência artificial — e esgotante.
Sensualidade está menos na roupa e mais na naturalidade de estar presente e à vontade.
IG – Esperar ele pagar a conta
Mary Scabora – Ainda há quem veja nisso um gesto de cavalheirismo — e tudo bem. Algumas mulheres se sentem confortáveis quando o homem paga. Outras preferem dividir desde o início, para afirmar sua autonomia.
Nenhuma escolha está errada, desde que a decisão seja consciente, e não baseada em regras antigas que colocavam a mulher em posição de dependência.
Se buscamos relações mais igualitárias, dividir a conta pode ser um bom começo. O importante é que cada um aja de acordo com o que faz sentido para si — e que esse gesto não reproduza papéis que já não cabem.
IG – Optar por pratos leves e “lights”
Mary Scabora – A melhor escolha é sempre o prato que mais prazer proporcionar. Antigamente, havia a ideia de que a mulher deveria comer pouco para parecer “delicada” — mas isso não faz mais sentido hoje.
No primeiro encontro, o importante é estar presente, compartilhar a conversa e a companhia. O prato acaba sendo secundário. Autenticidade também está nessas pequenas escolhas: comer o que você gosta, sem ficar pensando no que o outro vai achar.
IG – Fingir que não está tão afim
Mary Scabora – Essa ideia de “fingir desinteresse” ainda circula muito, mas costuma gerar confusão e até distanciamento. Muitas mulheres evitam demonstrar que gostam para não parecerem “fáceis” ou para testar o interesse do outro — mas, na prática, isso pode acabar afastando quem está de fato disponível para se conectar.
Mostrar que está interessada é um gesto de clareza e maturidade emocional. Quando o encontro é leve e sincero, vale mais ser honesta com o que se sente do que se prender a joguinhos que podem desgastar logo no início.
IG – Não usar roupas decotadas demais
Mary Scabora – É um primeiro encontro, não uma entrevista de emprego (risos). A roupa ideal é aquela que faz você se sentir bem e confortável. O importante é escolher algo que combine com o ambiente e com a sua forma de estar ali — sem exageros nem regras rígidas.
Mais do que seguir padrões, vale usar o bom senso e se vestir de um jeito que reflita quem você é. Afinal, estar à vontade é o que contribui de verdade para que o encontro seja leve e agradável. O bom senso continua sendo a melhor vestimenta.
IG – Não beber nada alcoólico
Mary Scabora – Depende de como a pessoa se relaciona com o álcool. Se ela não tem o hábito de beber, não é o ideal que comece justamente nesse contexto.
Prudência cai bem em qualquer lugar, e exagerar na bebida é um cuidado que deve ser tomado sempre — especialmente se o primeiro encontro for com alguém que se conhece há pouco tempo.
Exagerar na bebida pode comprometer sua percepção e, inclusive, sua segurança.
Mary Scabora
Psicóloga Clínica




