
A importância das emoções em nossa vida
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Sentimos medo e recuamos. A raiva pode nos fazer perceber que algum limite foi ultrapassado. A tristeza pode dar a medida de uma perda que ainda não conseguimos assimilar.
Há boas razões para levar as emoções a sério.
Mas sentir algo intensamente não nos diz, por si só, o que está acontecendo.
Podemos ter medo diante de uma ameaça real e também diante de uma situação que guarda alguma semelhança com experiências anteriores de perigo. A raiva pode responder a uma injustiça, mas também atribuir ao outro uma intenção que ele nunca teve. A ansiedade pode antecipar um problema concreto ou manter o organismo em alerta quando já não há o que enfrentar.
As emoções participam da maneira como percebemos uma situação e nos preparam para agir. Carregam nossa história, respondem ao presente e são atravessadas pelas condições em que vivemos.
É essa mistura que torna difícil interpretá-las.
O que sentimos não nasce apenas dentro de nós
Nossa vida emocional se forma na relação com o mundo. Há uma base biológica, mas aquilo que desperta medo, vergonha, raiva ou segurança também depende do que vivemos, das relações que estabelecemos e dos ambientes aos quais precisamos nos adaptar.
Aprendemos cedo o que pode ser dito, o que convém esconder, quando é seguro confiar e quais situações exigem atenção. Algumas dessas aprendizagens pertencem à nossa história particular. Outras são compartilhadas socialmente e aparecem nos valores, nas expectativas e nas formas de vida de uma época.
As condições presentes também importam.
Um ambiente de trabalho hostil pode manter alguém em estado de tensão. A insegurança financeira produz preocupações que não desaparecem com técnicas de relaxamento.
Há relações nas quais o medo tem fundamento, perdas que precisam ser sofridas e situações em que a raiva aparece diante de uma violação real.
Isso parece evidente, mas tem consequências importantes para a maneira como compreendemos o sofrimento psicológico.
Quando toda dificuldade emocional é interpretada como um problema de regulação individual, podemos acabar procurando exclusivamente na pessoa a origem de um sofrimento que também está relacionado às condições em que ela vive.
Regular uma emoção pode ser necessário. Compreender por que ela está presente também é.
O passado também participa do que sentimos no presente
Uma emoção acontece no presente, mas não começa necessariamente nele.
Experiências anteriores participam da maneira como reconhecemos perigo, proximidade, rejeição, perda ou segurança. Diante de uma situação nova, não respondemos apenas ao que está diante de nós. Respondemos também a partir do que aprendemos a perceber como significativo.
Isso ajuda a compreender por que duas pessoas podem viver a mesma situação de maneiras muito diferentes. E por que, em certos momentos, uma reação parece desproporcional quando observada apenas a partir do acontecimento atual.
O passado emocional segue atuando mesmo quando o presente já não exige defesa.
Essa frase, porém, precisa ser entendida com cuidado.
O passado não permanece dentro de nós como um registro intacto que simplesmente volta à superfície. Memória é reconstrução. Aquilo que vivemos anteriormente participa da percepção atual, mas também é continuamente reorganizado pelas experiências posteriores.
É possível, então, sentir medo sem estar diante do mesmo perigo que um dia tornou aquele medo compreensível. Ou antecipar rejeição numa relação em que ela ainda não aconteceu.
O organismo pode se preparar para uma ameaça antes que tenhamos conseguido avaliar claramente o que a situação atual representa.
Isso não torna a emoção falsa.
O medo está sendo realmente sentido. A ansiedade é real como experiência. O que permanece em aberto é outra coisa: a interpretação que fazemos daquilo que sentimos e da situação à qual estamos respondendo.
Sentir uma emoção e compreender o que ela significa não são a mesma coisa
O corpo pode reagir antes que tenhamos clareza sobre o que está acontecendo. Um ruído inesperado nos sobressalta. Uma expressão no rosto de alguém produz apreensão. Em certas situações, percebemos primeiro uma mudança no corpo e só depois tentamos entender o que houve.
Durante muito tempo, algumas dessas respostas foram explicadas pela neurociência de maneira relativamente simples. Tornou-se conhecida, por exemplo, a ideia de que existiriam duas vias envolvidas no processamento de ameaças: uma rápida e automática e outra mais lenta, capaz de uma avaliação mais detalhada da situação.
Essa explicação foi sendo revista e ganhou novas distinções. O próprio Joseph LeDoux, um dos pesquisadores mais associados a esse modelo, passou a diferenciar com mais cuidado os mecanismos envolvidos na resposta a ameaças da experiência consciente do medo: detectar e responder a uma ameaça não é o mesmo que experimentar conscientemente o medo.
Uma resposta defensiva pode ser desencadeada antes que exista uma compreensão clara da situação. Já a experiência que reconhecemos e nomeamos como medo envolve processos mais complexos, dos quais participam percepção, memória, atenção e interpretação.
Essa distinção evita uma conclusão bastante comum: a de que toda reação automática revelaria uma verdade profunda que a consciência ainda não conseguiu alcançar.
Nosso organismo aprende com a experiência e se torna sensível a sinais anteriormente associados ao perigo. Essa capacidade é indispensável à sobrevivência. Mas rapidez não é sinônimo de precisão.
O contrário também merece cuidado. Uma reação automática não é simplesmente um erro a ser corrigido.
Quando alguém entra em alerta diante de uma situação que hoje é segura, há uma experiência acontecendo ali. A reação pode trazer consigo aprendizagens construídas em outras circunstâncias. Em outros casos, há algo no presente que realmente merece atenção. Essas duas dimensões nem sempre aparecem separadas com clareza.
Devemos confiar no que sentimos?
Depende menos de decidir se uma emoção está certa ou errada e mais de compreender a relação que estamos estabelecendo com ela.
Sentir medo não obriga a fugir. Sentir raiva não determina um confronto. A tristeza não exige que nos afastemos do mundo. Entre aquilo que sentimos e aquilo que fazemos existe um campo de possibilidades, embora nem sempre tenhamos acesso a ele com facilidade.
Há momentos em que uma emoção nos aproxima de algo importante.
A raiva pode tornar visível um limite que vinha sendo ultrapassado. O medo pode nos fazer reconhecer um risco que estávamos minimizando. A tristeza pode nos colocar diante de uma perda que ainda precisa encontrar lugar em nossa vida.
Em outras situações, a mesma emoção começa a estreitar as possibilidades. O medo organiza escolhas cada vez mais defensivas. A ansiedade exige garantias que nunca são suficientes. A raiva passa a encontrar ameaça ou ofensa em situações ambíguas. A pessoa já não responde apenas ao que acontece: começa a organizar parte da vida para evitar aquilo que teme sentir.
Uma emoção, por si só, não nos diz o que fazer.
Podemos observar o que acontece a partir dela.
Que ações se repetem?
Que relações se tornam possíveis ou impossíveis?
O que passa a ser evitado?
Quanto da vida começa a se organizar em torno da tentativa de não sentir determinada coisa?
Uma emoção pode ser dolorosa e, ainda assim, participar de um movimento importante. Também pode produzir alívio imediato e nos prender a uma forma de viver cada vez mais estreita.
É por isso que bem-estar, sozinho, é um critério insuficiente para compreender a vida emocional.
Quando regular emoções se torna uma exigência de adaptação
Aprender a regular emoções pode ampliar nossa capacidade de atravessar situações difíceis sem agir de maneira impulsiva ou ficar inteiramente submetido ao que sentimos. Em psicoterapia, esse aprendizado muitas vezes é necessário.
O problema aparece quando regular passa a significar tornar-se capaz de suportar melhor qualquer condição.
Uma pessoa submetida continuamente a um ambiente de trabalho hostil pode aprender recursos para diminuir a ansiedade. Esses recursos podem ajudá-la de fato. Pode dormir melhor, recuperar alguma capacidade de concentração e conseguir pensar com menos urgência.
Mas, se toda a compreensão terminar aí, algo importante fica de fora. Parte daquela ansiedade pode estar relacionada às condições concretas em que ela trabalha.
O mesmo acontece nas relações. Alguém pode aprender a conter a raiva, comunicar-se melhor e perceber interpretações precipitadas. Tudo isso pode modificar uma relação. Mas há situações em que a raiva persiste porque limites continuam sendo desrespeitados. Nesse caso, aperfeiçoar indefinidamente a maneira de reagir não resolve aquilo que acontece entre as pessoas.
Há uma diferença entre desenvolver recursos para não ficar à mercê de uma emoção e aprender a tolerar melhor aquilo que continua produzindo sofrimento.
Vivemos também sob expectativas sobre como devemos administrar aquilo que sentimos. Espera-se concentração mesmo sob sobrecarga, disponibilidade apesar do esgotamento, equilíbrio diante de conflitos e capacidade de continuar funcionando. Nesse contexto, a linguagem do autocontrole pode facilmente transformar uma questão sobre condições de vida em uma questão sobre desempenho emocional.
A psicologia precisa ter cuidado para não participar desse deslocamento.
Regular para quê? Para tornar possível o quê? E para continuar vivendo de que maneira?
Essas perguntas não tornam a regulação emocional menos importante. Elas apenas impedem que a adaptação seja tomada, de antemão, como medida de saúde.
O que significa, então, cuidar das emoções?
Cuidar de uma emoção não exige obedecê-la, mas tampouco tratá-la como um obstáculo que precisa desaparecer.
Há momentos em que precisamos aprender a permanecer diante do que sentimos sem reagir imediatamente. Em outros, será necessário reconhecer que uma emoção está organizando escolhas, relações e modos de viver há tempo demais. Também existem situações em que o sofrimento aponta para algo que precisa mudar fora de nós.
Nenhuma dessas possibilidades pode ser decidida apenas pelo nome da emoção ou por sua intensidade.
Compreender o medo de alguém, por exemplo, envolve conhecer as situações em que ele aparece, aquilo que a pessoa passou a evitar, as experiências que participam dessa resposta e as consequências de organizar a vida em torno da tentativa de se sentir segura.
A pergunta deixa de ser apenas “por que estou sentindo isso?”.
Também importa observar: o que acontece comigo quando sinto isso? O que faço a partir daí? O que essa maneira de responder preserva e o que ela começa a restringir?
Mudar a pergunta importa porque uma emoção não existe separada da vida que se organiza em torno dela.
Uma pessoa pode passar anos tentando eliminar a ansiedade e, nessa tentativa, reduzir progressivamente aquilo que consegue fazer. Pode evitar conflitos para não sentir culpa e terminar sustentando relações nas quais quase não consegue se posicionar. Pode controlar cada detalhe em busca de segurança e descobrir que, quanto mais controla, menos tolerável se torna qualquer incerteza.
Nesses casos, diminuir o desconforto imediato nem sempre amplia a vida.
Cuidar das emoções envolve também construir outras maneiras de responder ao que sentimos. Não para alcançar um estado em que medo, culpa ou raiva deixem de nos afetar, mas para que aquilo que sentimos não determine sempre, e da mesma maneira, o que fazemos.
A liberdade, nesse sentido, não significa controlar completamente o que sentimos nem deixar para trás tudo o que nos marcou. Ela se constrói na possibilidade de não responder sempre da mesma maneira ao que nos acontece.
A psicoterapia como prática de compreensão e transformação
A psicoterapia pode ser um espaço para investigar como certas maneiras de sentir e responder foram se formando ao longo da vida e como continuam funcionando no presente.
Isso não significa procurar uma causa escondida para cada emoção. Nem todo medo precisa ser decifrado, nem toda reação corporal contém uma mensagem que ainda não conseguimos compreender.
O trabalho clínico parte também de situações concretas. Quando a ansiedade aparece? O que a pessoa teme que aconteça? O que faz para se proteger? O que passa a evitar? O que traz alívio naquele momento e que consequências essa maneira de responder produz depois?
Em alguns momentos, compreender experiências anteriores será importante. Em outros, o trabalho estará muito mais próximo do presente: permanecer numa situação que costuma provocar medo, experimentar uma conversa que vinha sendo evitada, reconhecer um limite, tolerar alguma incerteza ou interromper uma forma conhecida de reagir.
Compreender, nesse contexto, não é apenas saber de onde alguma coisa veio. É reconhecer como ela funciona na própria vida.
Mas compreender não basta.
Há mudanças que precisam ser experimentadas. Saber por que evitamos determinadas situações não significa que deixaremos de evitá-las. Reconhecer um padrão numa relação não produz, sozinho, uma maneira diferente de se posicionar nela.
A psicoterapia pode criar condições para que essas outras respostas sejam experimentadas, examinadas e construídas ao longo do processo. Não há uma forma previamente definida de vida à qual a pessoa precise chegar. O que está em questão é ampliar sua possibilidade de perceber como vem vivendo e participar mais ativamente daquilo que deseja manter, transformar ou deixar para trás.
Que lugar dar ao que sentimos?
Levar uma emoção a sério não significa presumir que ela esteja sempre correta sobre aquilo que acontece. Também não significa reduzi-la a uma reação que precisa ser controlada.
O que sentimos participa da nossa história, das relações que construímos e das condições concretas em que vivemos. Pode nos aproximar de algo que precisa ser reconhecido, mas também pode manter formas de responder que já não fazem sentido da mesma maneira no presente.
A questão não se resolve decidindo se devemos confiar ou desconfiar das próprias emoções.
É preciso conseguir permanecer diante delas tempo suficiente para compreender o que está acontecendo e, quando isso for possível, decidir o que fazer a partir daí.
Mary Scabora
Psicoterapia
Se você percebe que algumas emoções têm organizado suas escolhas, relações ou possibilidades de vida de uma maneira que gostaria de compreender melhor, a psicoterapia pode ser um espaço para esse trabalho.
Entrar em contato pelo WhatsAppSobre Mary Scabora
Mary Ana Paula Scabora (CRP 05/36742) é psicóloga clínica e especialista em neurociências e comportamento. Atende adultos no Brasil e no exterior, acompanhando pessoas que desejam compreender os processos emocionais, cognitivos e relacionais envolvidos em seu sofrimento e em sua forma de viver, para além da redução de sintomas.
Sua prática integra psicologia baseada em evidências, neurociências e reflexão filosófica, articuladas a uma escuta clínica orientada por pensamento crítico, rigor técnico e atenção à singularidade de cada trajetória.




