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18/07/2025Dores persistentes e exames normais: o sofrimento sem escuta
Quando o cuidado ignora a complexidade do sofrimento
Dores persistentes. Exames normais. Medicação que alivia, mas não resolve. Angústia que retorna: no peito, no sono, no estômago, no silêncio.
Esse é o caminho trilhado por muitos pacientes ao buscar ajuda no sistema de saúde. Circulam entre especialistas, entre medicina e psicologia, acumulam laudos, colhem resultados negativos. Mas seguem adoecendo.
O corpo fala, mas a linguagem que ele usa nem sempre encontra escuta.
Nesse cenário, costuma-se dizer que falta diálogo entre Medicina e Psicologia. E de fato falta.
Mas é preciso ir além desse diagnóstico. O problema não está apenas na ausência de conversa entre saberes, e tampouco se resolve com um encaminhamento cordial ao psicólogo. A questão é mais funda:
a medicina, tal como se estruturou na modernidade, foi forjada sobre uma escuta orientada:
- À objetividade, não à subjetividade;
- Ela escuta os sintomas, não às histórias;
- Aos sinais clínicos, não aos afetos;
- Aos resultados, não às experiências.
Isso não é uma falha moral dos médicos. É uma consequência lógica de sua formação e da forma como o sistema de saúde opera:
- Consultas curtas,
- Agendas lotadas,
- Serviços fragmentados,
- Pressão por produtividade
- Lógica hospitalar voltada à urgência, não à escuta.
Enquanto isso, o sofrimento emocional, que muitas vezes se expressa como dor física, insônia, exaustão ou crises inexplicáveis, permanece subnotificado, mal compreendido ou tratado de forma paliativa.
A psicologia pode contribuir de forma decisiva nesse contexto, mas
- Não como substituta da medicina,
- Nem como resposta para tudo que “não se encaixa” nos exames laboratoriais.
A psicoterapia é um espaço de elaboração, não de tradução rápida. Seu tempo é outro. Sua escuta é outra. Seu compromisso é com a construção de sentido, não com o apagamento do sintoma.
Por isso, mais do que oferecer soluções prontas, este artigo convida à reflexão crítica sobre um impasse institucional que afeta milhares de pessoas: o sofrimento que não aparece nos exames, mas que insiste em existir. E que, se não encontra lugar para ser dito, acaba sendo vivido no corpo.
A escuta médica e o modelo biomédico: o que se ouve, o que se descarta
Ao longo dos séculos, a medicina se consolidou como um saber técnico centrado na objetividade: medir, classificar, intervir. A escuta clínica, nesse modelo, está a serviço do diagnóstico, ela busca sinais, não sentidos.
O médico escuta para encontrar pistas que o conduzam à origem fisiológica do problema.
O que escapa a esse roteiro tende a ser descartado como irrelevante, inespecífico ou impreciso.
Por que isso ocorre?
Não se trata de desprezo pessoal pela subjetividade, mas de uma forma historicamente instituída de saber e poder, como já observava Foucault.
A racionalidade biomédica construiu sua autoridade na capacidade de isolar o corpo da linguagem, a fisiologia da experiência, o sintoma da história.
Nesse contexto, o sofrimento psíquico perde lugar como experiência legítima e torna-se ruído, excesso ou incômodo.
O que reforça essa lógica não é apenas o modelo formativo, mas o modo como os serviços de saúde estão organizados:
- consultas com tempo insuficiente,
- estruturas voltadas para a urgência,
- multiplicidade de especialidades sem comunicação entre si,
- pressão por produtividade e sobrecarga institucional.
Por que esperar que o médico “escute melhor” é quase cruel
Nesse cenário, esperar que o médico “escute melhor o paciente” é uma exigência quase cruel.
Limites estruturais:
- Como sustentar escuta quando o tempo médio de consulta é inferior a 15 minutos?
- Como acolher a dor emocional quando a estrutura clínica não oferece espaço para elaborá-la?
O problema não é (apenas) o médico, é o modelo.
E um modelo não se reforma com boa vontade, mas com crítica, revisão e reconstrução. Essa crítica, no entanto, não deve ser dirigida apenas à medicina.
Vivemos em uma cultura que:
- Valoriza a eficácia, a velocidade e o controle
- Desconfia da complexidade, do tempo e da ambiguidade que a subjetividade exige.
Quando o corpo adoece sem causa visível:
O adoecimento do corpo, quando não encontra causas visíveis, não gera compaixão: gera impaciência. Como se o sujeito estivesse “inventando” sua dor ou demorando demais para “superar” seu problema.
Consequência silenciosa:
É nesse contexto que o sofrimento emocional, especialmente quando se manifesta por meio do corpo, fica silenciado tanto pelo sistema quanto pela cultura. E a ausência de escuta se torna mais uma forma de sofrimento.
Se quiser refletir mais profundamente sobre o custo de negar ou banalizar o sofrimento emocional, compartilho este outro texto: A dor emocional existe. Fingir que não, tem um preço.
Psicologia não é suplemento emocional da medicina
Frente às limitações da escuta médica, há quem proponha um encaminhamento aparentemente simples:
“o paciente precisa de terapia”.
Mas essa afirmação, se descontextualizada, pode alimentar uma nova forma de reducionismo, agora psicológico.
Limites da tradução imediata:
Nem todo sofrimento que escapa ao campo médico deve ser imediatamente traduzido como “emocional”.
E mesmo quando o é:
- A psicoterapia não entra em cena como uma explicadora de sintomas,
- Não é uma decodificadora de significados ocultos
- Não é uma técnica de reparo subjetivo.
A psicoterapia não traduz o que o médico não entendeu. Ela escuta de outra forma, em outro tempo, com outro horizonte clínico.
A proposta terapêutica não é converter sintomas em metáforas nem oferecer alívio imediato. É criar um espaço onde:
- O que não encontrou linguagem, e por isso se expressou no corpo, possa ser elaborado, escutado e simbolizado.
- Onde não há pressa pela tradução rápida
A Proposta da psicoterapia não é entender ‘o que o sintoma quer dizer’, mas permitir que o sujeito participe da construção de um sentido possível para sua experiência.
A lógica do cuidado terapêutico:
Nessa perspectiva, a psicologia:
- Não ocupa o lugar que a medicina deixou vago.
- Ela não substitui, não compete, não corrige.
Sustenta outra lógica de cuidado, uma lógica que:
- suporta não saber de imediato,
- Não medicaliza o silêncio, que não apressa a fala.
Por isso, o trabalho psicoterapêutico não pode ser apresentado como solução rápida, técnica resolutiva ou “tratamento para tudo o que não tem causa médica”.
Quando assim apresentado, torna-se objeto de descrédito, e com razão. Nenhum processo de elaboração profunda se constrói em ritmo de protocolo ou marketing.
A psicoterapia não elimina sintomas como quem corrige um desvio. Ela sustenta o mal-estar até que o sujeito possa fazer algo com ele.
Essa é sua potência e também sua fragilidade institucional. Porque a cultura da saúde, ainda baseada em:
- Controle
- Evidência
- Tolerância zero à indeterminação
Acaba relegando a psicoterapia à condição de última instância: quando o corpo falha, o remédio falha, o exame não mostra.
A psicoterapia só pode operar com dignidade clínica se for reconhecida como espaço ético, legítimo e necessário para quem sofre sem tradução, não como último recurso
O silêncio sobre a saúde mental dos profissionais de saúde: quando o sistema adoece quem cuida
Se médicos têm dificuldade para reconhecer a dimensão emocional dos sintomas dos pacientes, talvez isso não se deva apenas à falta de diálogo com a psicologia. Talvez isso seja um sintoma de que a própria medicina está adoecida.
Realidade dos bastidores: exaustão, urgência e silêncio
Muitos profissionais de saúde vivem sob:
- Jornadas exaustivas,
- Enfrentam decisões de alto impacto com pouca retaguarda emocional e
- Operam em estruturas institucionais marcadas pela: sobrecarga, pela pressa e pelo imperativo de desempenho.
Os índices de burnout, ansiedade, depressão e suicídio entre médicos e residentes não são novidade e ainda assim, permanecem silenciados.
Quem cuida, frequentemente, não tem onde ser cuidado.
Esse silêncio não é casual: ele é estrutural.
A medicina, formada sob a lógica da invulnerabilidade e da objetividade, historicamente educa seus profissionais a:
- Suprimir a fragilidade,
- Interpretar o sofrimento emocional como sinal de “fraqueza” ou incompetência,
- Não reconhecer a dor emocional em si mesmos,
- Atuar em instituições que oferecem pouco ou nenhum espaço para elaboração subjetiva — seja do paciente, seja do próprio clínico.
Como, então, esperar que esse mesmo sistema acolha o sofrimento emocional de quem busca ajuda?
O esgotamento dos profissionais e a medicalização da escuta são dois lados do mesmo problema sistêmico:
- uma prática clínica que não suporta a indeterminação, o tempo da escuta, a singularidade da experiência subjetiva.
Não se trata de acusar os médicos por não reconhecerem o estresse dos pacientes, mas de perceber que eles próprios, muitas vezes, não reconhecem o estresse em si mesmos.
A dor precisa ser legitimada para ser nomeada; e, em muitos ambientes clínicos, a dor psíquica ainda é tratada como fraqueza, distração ou falha ética. É o próprio ethos da medicina que precisa ser transformado.
O esgotamento dos profissionais e a medicalização da escuta são dois lados do mesmo problema sistêmico.
É aqui que o diálogo com a psicologia pode — e deve — operar. Não como correção de rota, mas como ampliação de campo clínico e dispositivos institucionais de escuta.
Não se trata de “ensinar médicos a escutar emoções”, mas de construir espaços em que o sofrimento deixe de ser ruído e volte a ser linguagem, inclusive o sofrimento de quem cuida.
Escutar sintomas não é romantizar a dor
A psicoterapia como espaço de elaboração, não como substituição da medicina
“Será que meu corpo está tentando me dizer algo?”
Essa pergunta surge com frequência entre pacientes que sofrem com dores recorrentes, insônia, fadiga, crises de ansiedade, palpitações ou desconfortos inexplicáveis que não desaparecem mesmo após sucessivos exames. Trata-se de uma hipótese legítima. Mas o modo como essa pergunta é respondida faz toda a diferença.
Há dois riscos recorrentes:
- De um lado, a medicalização apressada, que oferece um nome e um remédio sem escutar o contexto;
- De outro, a romantização simbólica, que tenta interpretar sintomas como se fossem mensagens codificadas da alma.
Ambas as respostas são insuficientes e, muitas vezes, injustas com o sofrimento real de quem busca ajuda.
Um sintoma físico sem causa médica identificável não é uma metáfora a ser decifrada. É um fenômeno concreto que merece ser escutado com seriedade clínica, tempo e profundidade.
A psicoterapia pode ser o espaço dessa escuta — não porque ofereça respostas prontas, mas porque sustenta a pergunta.
Na clínica, a questão não é “o que este sintoma quer dizer?”, mas:
“o que este sintoma me obriga a escutar que ainda não teve lugar para ser dito?”.
Nem toda dor tem causa emocional. Mas toda dor merece elaboração para não se tornar apenas repetição.
A psicoterapia:
- Não substitui exames médicos.
- Não deve ser buscada como último recurso após a frustração com a medicina.
- Não é o espaço do “quando tudo mais falhou”.
Ela é o lugar onde o que parecia não fazer sentido pode começar a ser nomeado, sustentado e transformado. Não com fórmulas, mas com presença e processo.
Cuidar da saúde emocional, nesse sentido:
Não é luxo, nem fuga, nem autoindulgência. É parte integrante de um cuidado clínico mais amplo, ético e comprometido com o sofrimento humano em sua complexidade.
Quando o corpo insiste, é preciso escutar: com tempo, ética e complexidade
A separação entre corpo e mente não é apenas um erro conceitual. É uma falha institucional que produz diagnósticos imprecisos, tratamentos parciais e sofrimento crônico.
O modelo biomédico, com sua ênfase na objetividade, trouxe avanços inegáveis. Mas ao silenciar a subjetividade, também tornou muitos adoecimentos invisíveis ou, pior, indevidos.
O problema não está (apenas) na ausência de diálogo entre Medicina e Psicologia. Está no modo como a própria medicina foi construída:
- Sobre uma escuta que desconfia da experiência subjetiva, que cronometra o tempo da queixa e que patologiza o que não se resolve com precisão laboratorial.
Não se trata de substituir um modelo por outro, nem de converter todo sofrimento em “questão emocional”.
Trata-se de reconhecer que há dores que não aparecem nos exames, mas atravessam a vida e que só podem ser tratadas se forem escutadas.
Para isso:
- É preciso tempo clínico,
- abertura institucional
- Dispositivos terapêuticos que sustentem a complexidade do humano.
A psicoterapia é um desses dispositivos. Não porque “cura o que a medicina não deu conta”, mas porque oferece um espaço em que a dor deixa de ser ruído e pode se tornar linguagem. É nesse espaço que o sujeito, não o sintoma, volta a ter centralidade.
Se você tem convivido com sintomas que ninguém consegue explicar. Se já percorreu caminhos clínicos sem encontrar respostas ou se sente que seu sofrimento não tem lugar para ser dito:
Talvez seja hora de escutar o que ainda não foi nomeado.
A psicoterapia pode ser esse lugar. Não de explicação imediata, mas de presença, elaboração e cuidado.
Mary Scabora
🌱 Cuidar da saúde mental não é renunciar à medicina. É ampliá-la.
É reconhecer que somos inseparavelmente corpo, mente e história.
Sou Mary Ana Paula Scabora (CRP 05/36742), psicóloga clínica, especialista em neurociências e comportamento. Ofereço atendimento psicológico online para brasileiros no Brasil e no exterior. Minha prática integra técnica, sensibilidade e reflexão ética, com foco no cuidado emocional sofisticado e na escuta profunda.
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