Violência obstétrica: marcas que ficam

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projeto-1-4-retratos-da-violência-obstétrica-7A violência obstétrica é marcada não pela falta de acesso a tratamentos adequados, mas pelo descaso e pela falta de qualidade de um atendimento ético e mais humanizado.

Muito embora os relatos de violência obstétrica venham de todas as classes sociais e faixas etárias, entre mulheres de regiões mais pobres e mulheres negras há maior prevalência de casos de abuso e violência relatados, assim como entre mulheres solteiras. O que nos leva a pensar que a discriminação, o preconceito e o machismo favorecem a violência obstétrica.

O parto é um momento marcante na vida da mulher e que mobiliza altos níveis de ansiedade. Com isso, conteúdos inconscientes relativos à sua história de vida emergem, medos primitivos afloram, além dos temores comuns relacionados ao bem estar dela e do bebê. É natural que diante da expectativa do parto a mulher alimente fantasias sobre dor, medo de morrer no parto, de ser dilacerada, dúvidas sobre gerar um bebe saudável etc.

A mulher é violentada toda vez que algo lhe é imposto. 

É violada em sua individualidade e sua dignidade uma vez que perde o poder de decisão sobre seu corpo.

O significado psicológico deste momento na vida de uma mulher é incontestável e o impacto pode repercutir durante toda sua vida. Ao passar por uma experiência negativa a mulher vivencia o trauma de uma violência física e emocional: tem suas solicitações tratadas com indiferença, e recebe tratamento desumano, arrogante, grosseiro, humilhante, com ameaças, repreensões, insultos, desrespeito à individualidade e à dignidade. A mulher dificilmente sairá incólume psicologicamente desta experiência. 

Principalmente por se tratar de um momento em que ela está psiquicamente fragilizada e emocionalmente vulnerável, o que normalmente já favorece quadros depressivos.

RRO.4.00156Uma experiência traumática na qual ela é emocionalmente violentada ou tem o corpo dilacerado, como acontece em casos mais graves, repercute negativamente em todos os aspectos de sua vida e, consequentemente compromete a qualidade de suas relações na vida pessoal, afetiva, social e profissional.

Quadros depressivos são comuns no período da gestação e no pós-parto, mas na maioria dos casos acontecem de forma branda. A violência obstétrica é o maior fator de risco para a depressão pós-parto. Uma série de estudos evidencia associação entre a ocorrência da depressão pós-parto e o pouco suporte recebido pela gestante durante o parto.

O parto é um momento que ela espera que seja especial e se transforma num terrível pesadelo onde ela tem que lidar com sentimentos de impotência e desamparo absolutos. Muitas mulheres sentem desconforto e culpa por não conseguirem se lembrar do parto como um dia feliz e especial. Como dizer que o parto foi uma experiência terrível e dolorosa, para um evento tão significativo que teoricamente deveria ser sublime?  Elas sentem dificuldade em separar o momento do parto com a felicidade pela chegada do filho e vivenciam estes sentimentos contraditórios com certa estranheza. Além do sentimento de culpa por sentimentos com conteúdos tão ambivalentes.

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Projeto: Retratos da violência obstétrica – Carla Raiter e Caroline Ferreira

Em função do estresse sofrido e do alto nível de ansiedade, muitas mulheres vivenciam a experiência do parto com terror. Em alguns casos, quando o processo do parto foi longo e dolorido e principalmente quando ocorre a dilaceração do corpo, algumas mulheres até desistem de tentar uma nova gravidez.

Muitas vezes a violência ocorre de forma sutil, velada. A mulher demora em processar o ocorrido. Não compreende porque se sente angustiada, insegura, sensível demais, entristecida quando deveria estar feliz e realizada.

O sentimento de desamparo e impotência neste momento é muito forte. É um momento em que a mulher precisa de acolhimento. Muitas vezes ela tem dificuldades de explicar o que está acontecendo. Ela fica só, sem ter com quem compartilhar.

Demora-se um tempo pra conseguir processar e compreender o acontecimento de forma que consiga se instrumentalizar para lidar com todo o estranhamento. Cada pessoa tem uma forma especifica de lidar com situações traumáticas. Cada caso é um e deve ser olhado individualmente. O tratamento vai depender de como a mulher vivenciou a violência. O ideal é que ela tenha um espaço de escuta onde poderá refletir e elaborar as vivências negativas e onde ela poderá se expressar e compreender sua dor. Um espaço onde poderá buscar oportunidade de crescimento e de reavaliação.

Depressão pós-parto

Normalmente durante o processo de gravidez a mulher passa por transformações físicas e psicológicas que se refletem na forma como ela se relaciona consigo mesma e com os outros, ocorrendo mudanças relativas aos vínculos afetivos.  É fato que a depressão pós-parto afeta a qualidade da relação mãe e filho. Os sintomas da depressão vão dificultar o exercício da maternidade. Porém os efeitos da depressão na interação da mãe com o bebê dependem de uma série de fatores.

A depressão pode aparecer após 3 meses depois do parto.  Outros sintomas que podem aparecer. Muitas vezes a mulher não associa os sintomas à experiência do parto.

No entanto para muitas mulheres que sofreram de forma marcada a violência, é insuportável rever e reviver tanta dor que mesmo com o passar do tempo é sentida de maneira vívida e dolorida. Algumas demoram anos para digerir a situação, o que pode desenvolver ou ampliar  quadros depressivos.

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Retratos da violência obstétrica – Carla Raiter e Caroline Ferreira

Entre os principais sintomas da depressão pós-parto estão irritação, tristeza, cansaço excessivo, muito medo, ansiedade e insônia, antes, durante e principalmente depois do parto.

Também podem desenvolver sintomas ligados aos distúrbios de ansiedade em decorrência da experiência negativa, como o transtorno por estresse pós-traumático (TEPT), fobias relacionadas ao evento traumático (medo de médico, aversão a hospitais), distúrbios alimentares como compulsão ou perda de apetite, distúrbios do sono, sintomas psicossomáticos (problemas de pele, cabelo ou digestivos, o mais comum é a gastrite). Compromete a qualidade da vida sexual, já que, em decorrência dos cortes na região pélvica, é comum sentir dores; algumas mulheres sentem pontadas e desconforto durante o ato sexual, problemas com autoestima devido ao constrangimento em relação às cicatrizes, e de ordem social; deprimida e despotencializada ela recorre ao isolamento.

Receber apoio da família e dos amigos também ajuda e é importante, mas não evita o problema. Em caso de quadros graves de depressão e ansiedade, além da terapia, muitas vezes é necessário incluir o uso de medicamentos, com o acompanhamento psiquiátrico.

Mary Scabora