A relação obesidade-psicologia

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*Muitas vezes, o impacto psicológico da obesidade ou as razões emocionais que levaram a pessoa a esta situação são ignorados. Por que há esta dificuldade na identificação da relação obesidade-psicologia?

Muitos são os fatores. Infelizmente, o pensamento vigente ainda está ancorado no modelo biomédico mecanicista. Neste sentido, a metodologia utilizada para diagnosticar, classificar e estabelecer tratamentos e prognósticos da obesidade baseia-se em critérios científicos e fisiológicos com dados objetivos e, muitas das vezes, os fatores subjetivos são desconsiderados ou mesmo negligenciados. A Psicologia, assim como a Psiquiatria, compõe-se no imaginário social como sendo “coisa para maluco”. A população em geral, independentemente de nível socioeconômico, desconhece a necessidade desses profissionais. Não existe uma campanha adequada e esclarecedora sobre a importância de tratamentos que promovam a saúde mental. Além, é claro, da indústria farmacológica e estética, que vendem a ilusão do emagrecimento rápido no qual as pessoas são “capturadas” por uma demanda social, um tanto quanto tirânica, que relaciona emagrecimento com a beleza e a aceitação social e não à saúde e ao bem estar.

Seja como causa ou como efeito,é fato que as perturbações psíquicas têm papel significativo na obesidade. O ato de comer possui significados simbólicos que estão ancorados na fase mais primitiva no desenvolvimento.Psi-scabora.emagrecimento_xl

Na literatura psicanalítica, a boca é o primeiro acesso de comunicação com o mundo externo. O recém-nascido percebe o mundo e estabelece contato através da boca e é nesta fase oral que estabelecemos relação e comunicação com o mundo externo, tendo contato com sentimentos como prazer, satisfação, amor, agressividade, raiva, privação e medo. A boca, além de ser uma das fontes de nutrição, é também de satisfação. O ato de comer gera prazer e, consequentemente, tranquilidade. Isso explica a compulsão que se apresenta na maioria de pacientes obesos e com dificuldades em manter um peso saudável. Mas neste caso, são um prazer e uma satisfação ilusórios.

 

Mary Scabora

*Entrevista concedida à revista Psiquê Ciência e Vida