6 passos para superar uma traição – Revista Viva Mais

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O caminho para você dar a volta por cima e ser feliz sozinha ou reconstruir a união

Íntegra da entrevista concedida a revista Viva! Mais  

Viva! Mais  Vale a pena conversar para tentar entender o motivo da traição? Ou quando as pessoas estão feridas isso não é um bom passo?

Mary Scabora – Uma boa conversa sempre vale a pena, pois o diálogo é importante para não dar margens a fantasias que só colaboram para aumentar o sofrimento e, para ajudar a entender o que de fato levou o parceiro a ser infiel.  Porém, o ideal é que no primeiro momento, a pessoa dialogue consigo mesma, no sentido de repensar a relação. Como a relação está estabelecida e a forma como ela se coloca na relação. Descobrir a infidelidade dói.
Trata-se de uma ferida narcísica e consequentemente abala o ego. É um momento em que emoções, como raiva, mágoa, culpa, entre outras, se tornam muito vivas e emerjam com força total.
Dialogar num momento em que tais emoções estão afloradas pode ser catastrófico, pois geralmente o “traído” coloca-se no lugar da “vitima” (o que é natural nesse momento) e sente-se no direito de descarregar a ira e o ressentimento no outro. Desta forma, um diálogo coerente e construtivo torna-se improdutivo e não levará a lugar algum.

homem-traicao-17171Viva! Mais – É preciso um tempo para avaliar a situação antes de decidir se quer terminar a relação ou se quer tentar superar isso juntos?

Mary Scabora – Sim, fundamental!  Nem sempre uma infidelidade significa que não exista mais amor ou desejo.  Cada história é uma história e é sobre sua própria história que a pessoa deve avaliar e refletir. Existe amor? Desejo? Cumplicidade? Parceria? É uma relação que nutre? Que potencializa? Vale a pena investir na relação?

Situações como essas, embora sejam doloridas, são também potencializadoras. Se os envolvidos conseguem passar pelo processo, é um bom momento para reformatar a relação estabelecendo novos acordos baseados na ética e não só na moral. Relações humanas são muito vivas e dinâmicas, as pessoas se relacionam baseadas em contos de fadas com “príncipes encantados” e “felizes para sempre”. Isso não existe.

Viva! Mais – É importante curtir a fossa ou ela não deve abrir espaço para a tristeza? Como evitar a auto piedade?

Mary Scabora – Não adianta negar, descobrir uma infidelidade dói, e dói muito. Portanto, respeitar a dor é importantíssimo no processo.

No primeiro momento, o sentimento de auto piedade é natural, o que não significa que a pessoa deva se estender nesse sentimento por muito tempo.

Nossa cultura prega que devemos ser felizes a qualquer custo e não dar margem a tristeza, assim, buscamos fórmulas para camuflar a dor. Porém, vivenciar a tristeza é importante, são em momentos de dor que refletimos sob outras perspectivas e criamos novas possibilidades. Como bem disse Nietzsche: ”É preciso ter um caos dentro de si para dar à luz uma estrela cintilante.” A pessoa precisa ter em mente que a relação não é a vida dela, e sim, somente uma parte da vida dela.

Viva! Mais – Nesse caso é inevitável ter a autoestima abalada, certo? Há dicas práticas para fazê-la se sentir melhor consigo mesma? (ir ao cabeleireiro, ir para a academia, fazer algum tratamento estético…)

Mary Scabora – Sim, muitas vezes a pessoa, até mesmo pelo comodismo que o casamento traz, se negligencia nesse sentido. É importante aproveitar para fazer coisas que gostaria de ter feito, mas nunca tomava iniciativa.  Renovar o guarda-roupa, mudar o visual, cuidar do corpo, da saúde, da beleza, encontrar amigas, fazer novas amizades. E também é um bom momento para construir uma história de amor consigo mesma.

Viva! Mais  Para superar, o melhor caminho é cortar relações com o ex-parceiro? Isso evita aquela situação mal resolvida? E em casos que o encontro é inevitável (pai dos seus filhos) como lidar com a situação?

Mary Scabora – No caso de uma separação, se a ferida ainda estiver inflamada, o ideal é evitar eventuais encontros até que a situação esteja razoavelmente resolvida e seja suportável lidar com o outro. Em situações inevitáveis, marque os encontros em lugares neutros, e procure manter a calma e distanciamento emocional para que não respingue nos filhos, pois isso pode trazer mais dor e sofrimento.

Viva! Mais – Sair com amigas e pessoas diferentes reforça a autoestima?

Mary Scabora – Reforçar a autoestima ajuda a esquecer. A ordem é: Divirta-se, entregue-se ao “papo bobagem” e dê boas risadas. Nada de ficar falando sobre o ex ou sobre a dor sentida.

Viva! Mais – É aconselhável se envolver com outras pessoas?

Mary Scabora – É aconselhável sair com outras pessoas desde que a pessoa esteja aberta para vivenciar novas experiências e despida de mágoas e ressentimentos da relação anterior.

É importante compreender que cada relação é única. Nada mais desagradável num encontro onde outro fica falando da relação anterior ou estar em uma relação onde se transfere para o outro os medos e inseguranças de experiências passadas.

Viva! Mais – Como superar a vontade de se vingar de quem lhe fez sofrer, especialmente se ele engatar um relacionamento com o pivô da traição?

Mary Scabora – É muito delicado. Amor e ódio são dois lados da mesma moeda e, tais sentimentos sempre vêm acompanhados de outros sentimentos como a raiva, a frustração, a mágoa, entre outros. A pessoa deve estar atenta para as sensações e os sentimentos que as atravessam e procurar lidar com eles de forma lúcida e produtiva. O foco deve ser nela e em sua vida dali para frente.  Afinal, a vida pulsa e acontece no instante. Com o tempo, o valor que atribuímos aos acontecimentos perde a força e ganha novos significados. Tudo vai depender de como cada um lida com tais questões.

Viva! Mais – Muitas vezes a tendência é se culpar pelo ocorrido, certo? É importante admitir uma participação no processo que levou à traição ou isso não é construtivo?18600176_xxl

Mary Scabora – Muitas pessoas pensam que se o parceiro procurou outra é porque ela (e) está falhando em algo e, isso nem sempre é verdadeiro. É importante compreender que o parceiro é um ser individual, que tem seus desejos, carências, suas fantasias, fraquezas e limitações comuns ao ser humano e são de ordem pessoal e intransferível.

Em nossa cultura, as relações amorosas são permeadas pela ideia de “unidade”, de “posse”, ou seja, as pessoas se relacionam acreditando que os dois são um só, quando na verdade o que existe é uma interseção.

Se decidir continuar investindo, o ideal é reconstruir a relação e alimentar a ideia de “como podemos fazer diferente e melhor”, no lugar de cultivar culpas que só levam ao sofrimento.

Construtivo é que a pessoa se valorize, valorize o outro, e separe momentos prazerosos a dois. Programar viagens a dois, passeios românticos, pensar em novas possibilidades para o sexo, dialogar mais sobre a relação. Lembre-se, nestas situações os dois sofrem.

Viva! Mais  Como lidar com a opinião alheia, especialmente se você decidir manter o relacionamento?

Mary Scabora – O ideal é que a pessoa selecione seu “ombro amigo” para compartilhar sua dor. É comum no ser humano se projetar no outro; nesse sentido, as pessoas tendem a manifestar suas opiniões baseadas em seus afetos. E, cada relação tem seus próprios acordos.

Muitas vezes, sentindo-se refém do olhar e do julgamento do outro, as pessoas tomam decisões que se arrependerão mais tarde.

Viva! Mais  Uma viagem pode ajudar a superar?

Mary Scabora – Uma viagem colabora, pois fará bem respirar outros ares, mudar de ambiente e ainda, quem sabe, proporcionar um bom encontro. Mas a dor não é uma questão geográfica, ela nos acompanha.

Viva! Mais – Qual é o processo para superar mesmo esse problema e não retomar o caso da traição a cada briga? Para tentar prosseguir com a relação é preciso entender e perdoar o que o parceiro fez?

Mary Scabora – Respeitar o tempo! Seria impossível, mesmo depois de uma boa conversa, que a pessoa que se sentiu atingida simplesmente perdoe e esqueça o que se passou. Os afetos reverberarão por algum tempo e aos poucos vão se dissipando. 

O importante é que a pessoa não cultive a mágoa e o ressentimento. Nos primeiros momentos, diante de uma discussão, quando emoções vêm à tona, é comum e natural retomar o assunto. Portanto, é fundamental que o outro entenda que isso faz parte do processo e releve, evitando assim que discussões corriqueiras não se tornem maiores.

Viva! Mais  Há mais algum conselho, orientação ou dica que você possa dar para quem está passando por essa situação?

Mary Scabora – Renove-se – Se continuar com o parceiro, aproveite para reformatar a relação, use a experiência para o enriquecimento e redescobrimento dos dois.

Se for partir para outra, livre-se de qualquer ressentimento ou mágoa. Dialogo é fundamental em qualquer relação, é importante conhecer os pontos de vista do outro e reconhecer os próprios pontos de vista. Saber o que realmente pensa sobre tudo que envolve uma relação sob uma perspectiva da ética e não somente pautada por moralismos.  

Temas como infidelidade ainda são vistos como tabu pela maioria das pessoas. Muitos ainda confundem amor com posse e acreditam que se amam uma pessoa não se interessará e não desejará mais ninguém, não admitindo que isso também aconteça com o outro.